Para entender por que vemos tantas marcas venderem suas próprias reproduções do modelo Arizona, sem que a Birkenstock derrube todas na justiça, precisamos analisar como funciona a proteção legal desses produtos.
Patente vs. Desenho industrial
- Patente: protege uma invenção funcional (ex: um novo motor ou um remédio).
- Desenho industrial (design): protege a aparência estética.
A Birkenstock completa 252 anos em 2026, mas o famoso e copiado modelo Arizona foi lançado apenas em 1973. Proteções de design e patentes têm prazo de validade (geralmente entre 15 a 25 anos), e uma vez que esse prazo expira, o design cai em domínio público, permitindo a sua reprodução por quem quer que seja.
O conceito de Trade Dress
A Birkenstock tenta se defender usando o conceito de Trade Dress. Isso significa que a aparência do produto é tão icônica que o consumidor a identifica imediatamente como sendo da marca.
Por que a Birkenstock não processa todas as marcas que a copiam?
Falsificação vs. cópia: a empresa processa severamente quem usa o nome "Birkenstock" ou o logotipo, pois isso configura pirataria. Mas, se uma marca faz uma sandália parecida sem usar o nome da marca alemã, isso é considerado uma "tendência de mercado".
A guerra contra a Amazon: em 2018, a Birkenstock parou de vender diretamente na Amazon dos EUA e Europa porque a plataforma não combatia de forma eficiente os vendedores de cópias e produtos falsificados.
“Birkenstock não é obra de arte": em fevereiro de 2025, o Tribunal Federal de Justiça da Alemanha (a instância máxima) deu um veredito decepcionante para a marca. A Birkenstock tentou argumentar que seus modelos (Arizona, Madrid e Gizeh) deveriam ser protegidos por Direitos Autorais como "obras de arte aplicada".
Onde reside a verdadeira proteção?
Atualmente, a Birkenstock foca na anatomia da palmilha (footbed). Embora o visual externo possa ser copiado, a tecnologia da cortiça e o suporte ortopédico específico são muito difíceis de replicar com perfeição. A marca vende o argumento de que “Muitos copiam a aparência, mas ninguém copia o conforto”.
Recentemente, o grupo LVMH (conglomerado gigante da moda, dono, entre outras marcas de luxo, da Louis Vuitton) comprou a Birkenstock, o que deu à empresa ainda mais "músculo" jurídico e financeiro para proteger sua exclusividade.
Existem três níveis de "cópia" que a Birkenstock enfrenta:
- Falsificação: quando outro fabricante usa o nome Birkenstock ou o logo na palmilha. Por ser ilegal, a Birkenstock processa e sempre ganha.
- Cópia do design: quando outra empresa lança uma sandália com 2 tiras e sola de cortiça, mas com marca própria. Devido a questões regionais de patentes, é uma zona cinzenta, onde um processo é difícil de ser vencido na justiça.
- Inspiração: quando outra marca lança sandálias que lembram o estilo, mas mudam materiais ou detalhes. A situação é legal, sendo considerada como “tendência” e faz parte do mercado da moda.
A Birkenstock não processa todos porque, legalmente, ela perdeu o direito de exclusividade sobre o "formato" básico da sandália na maioria dos mercados desenvolvidos, já que o design tornou-se um "padrão utilitário" de domínio público. Além disso, o custo-benefício de processar cada pequena fábrica de calçados no mundo seria financeiramente inviável e juridicamente incerto.

